A Glória que valeu a pena (Por Sabatini Lali – Ministrado na cerimônia fúnebre de Ayrton Senna)

A Glória que valeu a pena - Contigrejas Contabilidade Online

11

abr

O prêmio alcançado pelo cristão, entretanto, segundo Paulo, é um prêmio imperecível, incorruptível, porque tem a característica da eternidade, e lhe é dado pelo Senhor da glória!


Na sua primeira epístola aos Coríntios (9.24-25), Paulo faz uma comparação entre os atletas que corriam nos Jogos Ístmicos da antiga Grécia, em busca de vitória e do prêmio que esta lhes poderia assegurar, e a carreira cristã que, também assegurava vitória e prêmio ao que vence. A diferença, segundo Paulo, está no fato de o prêmio oferecido e alcançado e obtido na carreira cristã é incorruptível! Paulo acentua o fato de o esforço do atleta nos Jogos Ístmicos – na dura preparação de dez meses de exercícios na busca de condicionamento físico que lhe pudesse assegurar a vitória e o prêmio tão cobiçado – ser um esforço de certo modo inútil, visto que o prêmio da vitória era um prêmio perecível, corruptível! O prêmio alcançado pelo cristão, entretanto, segundo Paulo, é um prêmio imperecível, incorruptível, porque tem a característica da eternidade, e lhe é dado pelo Senhor da glória!

 

 

Na antiga Roma, quando um general entrava triunfalmente na cidade, coberto de glória pelos feitos militares, ia em pé, na sua biga, um escravo que lhe sussurrava ao ouvido: “Memento homo, quia puvis es, et in pulverem reverteris”, que significa: “ Cautela homem, porque és pó e em pó te tornarás”. Com esta frase, o antigo pagão romano reconhecia e proclamava a fragilidade do homem e o caráter efêmero de sua glória, por mais retumbantes e extraordinários que fossem os seus feitos!

 

 

As escrituras também (Sl 103.15-16; 1Pe 1.24-25) nos oferecem um claro retrato da fragilidade humana, quando nos diz que “os dias do homem são como a erva e como a flor do campo”, pois é assim que o homem floresce; do mesmo modo que a erva e sua flor caem ao soprar do vento, assim também a vida e a glória do homem desaparecem sem deixar vestígios! Os feitos do homem, em todas as áreas de sua atividade – quer sejam feitos militares, políticos, econômicos ou esportivos – trazem consigo as marcas da precariedade humana, e a glória desses feitos, por mais brilhante que seja, é volátil, é passageira, é efêmera! O pior de tudo, segundo o apóstolo Pedro, é que o homem alienado de Deus envereda pelos descaminhos da injustiça, em busca do prêmio da maldade! (2 Pe 2.15)

 

 

No entanto, as escrituras nos dizem que quando o homem saiu das mãos do Criador, não era assim, mas trazia em si, íntegra e perfeita, a imagem e semelhança de Deus. Por isso, vivia em harmonia com o seu Criador, consigo mesmo, com o seu semelhante e com a natureza, incluindo todas as formas de vida, exercendo o seu domínio com equilíbrio, sem agressão e sem violência. É do homem nestas condições que o Salmo 8 fala, quando diz que “o homem foi feito pouco menor do que os anjos, e foi coroado de glória e de honra!”

 

 

Entretanto, com a queda do homem e sua alienação de Deus, a imagem de Deus nele se desfigurou e a morte passou a fazer parte integrante de sua experiência, pois a morte, segundo Paulo, “é o salário do pecado” (Rm 6.23). Esta realidade que alcança a todos os homens, sem exceção, até mesmo aqueles cujos feitos se revestem de heroísmo, não é irremediável porque Deus, pela sua graça, providenciou um meio que pode restaurar sua imagem no homem decaído: é a redenção de Cristo, que não é outra coisa senão a restauração da imagem de Deus no homem, restabelecendo a sua harmonia com Deus, consigo mesmo, com o seu próximo e com a natureza!

 

 

Ayrton Senna da Silva foi um atleta consumado e quase perfeito. Como os atletas dos antigos Jogos Ístmicos, ele também se exercitava constantemente para obter o melhor condicionamento físico possível para vencer nas pistas, nas mais eletrizantes competições! Sua coragem, sua obstinação e seu desempenho, na busca de vitórias, fizeram dele, para o povo brasileiro, o símbolo de sua esperança, como herói nacional! A educação que recebeu no lar, a influência dos pais na formação o seu caráter, fizeram dele mais do que um grande atleta: fizeram dele um homem!

 

 

Ele amava a família, amava a pátria e amava a velocidade. À família – ao pai e a mãe, particularmente – retribuiu com honra e alegria tudo quanto deles recebeu! À pátria, a cada vitória empunhando a bandeira nacional, honrava, despertando o orgulho de um povo sofrido e marcado pela ação nefasta de governantes irresponsáveis! À velocidade, que exercia sobre ele um verdadeiro fascínio pagou um tributo máximo: a própria vida!

 

 

Ao Ayrton Senna pode-se aplicar a recomendação de Paulo, na sua segunda carta aos Coríntios (16.13), onde Paulo diz aos cristãos dessa cidade: “Andrízesthe”, isto é, “Portai-vos varonilmente!” Esta recomendação adquire extrema importância, quando sabemos que a cidade de Corinto era tão corrompida, ao ponto de se criar um verbo que expressava essa corrupção: “korinthuanízen”, que significa “viver de forma dissoluta, á maneira de Corinto”. Era nesse meio que o cristão deveria viver e comportar-se varonilmente, comportar-se com hombridade! O verbo “ andrízesthe”, forma imperativa de “andrízomai” – e que significa “portar-se varonilmente” – deriva-se do substantivo “anér,andrós” que traduz a idéia de homem, acentuando o caráter moral de sua natureza. Para viver com hombridade, portanto de maneira vitoriosa, é preciso nascer de novo e ser gerado em Cristo! Nas muitas entrevistas que Ayrton deu á imprensa, ele afirmou sua fé em Deus, que para ele, não era apenas uma idéia, mas uma realidade que governava sua vida. Os princípios que ele cultivou e aos quais se manteve fiel, fizeram dele um homem na verdadeira acepção da palavra: portou-se varonilmente, portou-se com hombridade e, por isso, foi o que foi.

 

 

Por esta razão, além das inúmeras vitórias e prêmios obtidos na pista – que fizeram dele uma estrela de primeira grandeza no automobilismo – vitórias e prêmios perecíveis e corruptíveis, por maiores que tenham sido, no dizer de Paulo, Ayrton recebeu do Senhor o prêmios dos prêmios: a coroa de glória que a graça do Senhor Jesus certamente lhe assegurou! Sua irmã Viviane, que convivia com ele, deu seu testemunho, lendo as seguintes palavras de Paulo:

 

“Pois estou certo de que, nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as potestades, nem o presente, nem o porvir, nem a altura, nem a profundidade, nem outra criatura nos poderá separar do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 8.38-39)

 

Esta foi a glória permanente, a glória incorruptível que o Ayrton também recebeu! A glória que valeu a pena!

 

 

Por Sabatini Lali



Comente: