AS RÃS E O PINTASSILGO: UMA LIÇÃO NO FUNDO DO POÇO

26

mar

  pintassilgo  morreu  de dó. Como é que as rãs  podiam viver presas em tal poço, sem ao menos a esperança de poder sair? Claro que a ideia  de sair era  absurda  para os batráquios, pois, se o seu buraco era o universo, não poderia haver um "lá fora"


 

Há uma história acontecida em algum lugar, não muito logo daqui, entre uma comunidade de rãs e um pintassilgo. Conta-se que um casal de rãs caiu dentro de um poço. Elas passaram por uma pequena abertura da tampa e não mais conseguiram sair. Uma sociedade de rãs acabou sendo estabelecida naquele poço.

Com o tempo algumas crostas se apegaram ao buraco da tampa do poço tornado-o menor do que era. Tão apertada era o buraco da tampa do poço que nenhuma delas jamais havia visitado o mundo de fora, e nenhuma outra rã jamais voltou a entrar ali.

Ali elas viviam gerações após gerações, conven­cidas  que o universo era do tamanho do seu buraco.   Havia   sobejas   evidências   científicas para   corroborar   esta   teoria   e   somente   um louco,  privado dos sentidos e da razão, afir­maria    o    contrário.    Aconteceu,    entretanto, que   um  pintassilgo que voava  por ali, e que cabia na pequena abertura, sentiu sede e sentiu o cheiro da água. Voou para dentro do poço pela pequena abertura que lhe cabia. Dentro do poço, ficou curioso ao ver aquela comunidade de rãs.

O pintassilgo então começou a indagar sobre o modo de vida daquelas rãs. Elas então, tinham na boca a resposta pronta para as indagações do pintassilgo. Elas ficaram perplexas com aquele bicho cheio de penas e horroroso. Pois aquela estranha criatura de penas colocava em questão todas as verdades já secularmente sedimentadas e comprovadas em sua sociedade.

O  pintassilgo  morreu  de dó. Como é que as rãs  podiam viver presas em tal poço, sem ao menos a esperança de poder sair? Claro que a ideia  de sair era  absurda  para os batráquios, pois, se o seu buraco era o universo, não poderia haver um “lá fora”. E o pintassilgo se pôs a  cantar furiosamente. Trinou a brisa suave, os campos verdes, as árvores copadas, os riachos cristalinos, borboletas, flores, nuvens, estrelas. . . o que pôs em polvorosa a sociedade das rãs, que se dividiram.

Algumas acreditaram e começaram a imaginar como seria lá fora. Ficaram mais alegres e até mesmo mais bonitas. Coaxaram canções novas. As outras fecharam a cara. Afirmações não confirmadas pela experiência não deveriam ser merecedoras de crédito, elas alegavam. O pintassilgo tinha de estar dizendo coisas sem sentido e mentiras. E se puseram a fazer a crítica filosófica, sociológica e psicológica do seu discurso. A serviço de quem estaria ele? Das classes dominantes? Das classes dominadas? Seu canto seria uma espécie de narcótico? O passarinho seria um louco? Um enganador? Quem sabe ele não passaria de uma alucinação coletiva?

 Dúvidas não havia de que o tal canto havia criado muitos problemas. Tanto as rãs dominantes quanto as rãs dominadas (que secretamente preparavam uma revolução) não gostaram das ideias que o canto do pintassilgo estava colocando na cabeça do povão. Por ocasião de sua próxima visita o pintassilgo foi preso, acusado de enganador do povo, morto, empalhado e as demais rãs proibidas, para sempre, de coaxar as canções que ele lhes ensinara. . .”

Muitos pensam assim como essa comunidade de rãs. Acreditam no mundo que veem, tocam.  Enxergam a vida apenas por um  pequeno buraco. Nascer, viver e morrer. Se um mensageiro aparecesse e afirmasse que a vida vai além do buraco do nascimento, vida e morte, o  que se faria com ele? Ela seria morto como foi o pintassilgo? Certamente, ele seria acusado de ser um louco, um enganador, um farsante, um alienador do povo, afinal de contas tudo porque  aqui foi sempre assim: nascimento, vida e morte.

Mas, a alguém que veio e disse que além dessa vida aqui, há uma outra. Que tudo não termina num túmulo, num “jardim da saudade”, bonito por fora, mas podre por por dentro. Eles o mataram também, mas ele ressuscitou. Essa é a boa nova:

Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida ETERNA, (João 3.16).

 

…ao qual Deus RESSUSCITOU, rompendo os grilhões da morte, pois não era possível que fosse retido por ela,  (Atos 2.24).

História adaptada, contada por Rubem Alves

Pr. Roque Carvalho



Comente: