E Agora José?

14

jun

Uma analogia do poema de Carlos Drummond de Andrade e o José da Bíblia


O poema de Carlos Drummond de Andrade “E Agora José”, na opinião de seus leitores e analisadores, retratam a sua própria vida. Ele mesmo afirmou que a vida é uma experiência para ser vivida, todavia sem solução para seu dilema existencial. Para ele,  mediante a morte a vida se acaba e não há nada mais.

 

“Eu sou uma pessoa inteiramente pessimista, cética. Não acredito em nenhum valor de ordem política, filosófica, social e religiosa. Acho a vida uma experiência que tem que ser vivida, mas que se esgota e termina, acabou, nada mais”.

 

No seu poema sobre José ele retrata a sua própria existência, seu presente e o seu futuro. Gosto demais dos poetas brasileiros e Carlos Drummond é um deles. A partir do que ele escreveu e do que entendi de seu poema eu faço algumas ponderações:

 

E agora, José? A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou, e agora, José? E agora, Você?  Você que é sem nome, que zomba dos outros, Você que faz versos, que ama, protesta? E agora, José?

 

Houve um tempo de diversão, e ele tem que voltar a realidade

 

Está sem mulher, está sem discurso, está sem carinho, já não pode beber, já não pode fumar, cuspir já não pode, a noite esfriou, o dia não veio, o bonde não veio, o riso não veio, não veio a utopia e tudo acabou e tudo fugiu e tudo mofou, e agora, José?

 

Agora é desilusão, a mulher o deixou já não tem carinho, ele já não tem saúde, não há mais riso.

 

E agora, José? Sua doce palavra, seu instante de febre, sua gula e jejum, sua biblioteca, sua lavra de ouro, seu terno de vidro, sua incoerência, seu ódio, – e agora?

 

Ele tenta faze alguma coisa para encontrar um escape da situação em que se encontra

 

Com a chave na mão quer abrir a porta, não existe porta; quer morrer no mar, mas o mar secou; quer ir para Minas, Minas não há mais. José, e agora? Se você gritasse, se você gemesse, se você tocasse, a valsa vienense, se você dormisse, se você cansasse, se você morresse… Mas você não morre, você é duro, José!

 

Ele tem a chave na mão, ele quer encontra a solução, não existe porta, a morte pode ser uma solução, Minas Gerais que é a cidade do poeta, está tudo fora de cogitação, quem sabe ele poderia gritar, gemer, morrer, mas nem a morte é solução

 

Sozinho no escuro qual bicho-do-mato, sem teogonia, sem Deus, sem parede nua para se encostar, sem cavalo preto que fuja do galope, você marcha, José! José, para onde?

 

Esta ultima estrofe confirma o desespero de José após tantas tentativas. Ele está sozinho no escuro, na noite de sua vida, ele não tem Deus, sem cavalo para fugir, só lhe resta uma vida vegetativa, marchar sem rumo. Não tem sobrenome. Ele procura retratar um homem que não consegue perpetuar a sua alegria, padece em meio aos conflitos, um homem sem Deus, que simplesmente tem que se conformar com o seu dilema.

 

Depois de ler o poema de Carlos Drummond lembrei-me então de outro José. O José filho de Jacó. Vendido para o Egito pelos irmãos por ciúme, foi comprado por um general chamado Potifar. Resistiu às investidas da mulher desse general e acusado de estupro foi parar numa prisão, da prisão ele foi promovido para o posto de maior homem, somente abaixo do faraó, mais importante da potência mundial da época (Genesis 37-45).

 

O grande segredo do José da Bíblia é que podemos encontrar na sua saga, aquilo que fez a maior diferença: “Gn 39.2 Mas o Senhor era com [José], e ele tornou-se próspero; e estava na casa do seu senhor, o egípcio. Gn 39.21 O Senhor, porém, era com [José], estendendo sobre ele a sua benignidade e dando-lhe graça aos olhos do carcereiro”.

 

Vou continuar apreciando Carlos Drummond como um gênio de nossa poesia, mas como esperança e uma saga do José que sabia todo o tempo o que estava por trás da sua história, prefiro o José da Bíblia.

 

Roque Carvalho

 



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